Por que 'não fazer nada' pode te ajudar a ser mais produtivo no trabalho


BBC BRASIL.com | 09/01/2018

Quando me mudei de Washington para Roma, uma cena me impressionou mais do que qualquer basílica ou templo antigo: a de pessoas que não "faziam nada".

Com frequência, me deparava com senhoras debruçadas nas janelas, observando as pessoas que passavam, ou famílias em meio a suas caminhadas noturnas, parando de vez em quando para cumprimentar conhecidos.

Até mesmo a rotina no escritório era diferente. Nada de sanduíches devorados às pressas. Na hora do almoço, os restaurantes ficavam repletos de profissionais que se sentavam à mesa para comer devidamente.

Certamente, desde o século 17, quando os jovens do Grand Tour (roteiro que os europeus de classe média e alta costumavam fazer) começaram a escrever seus relatos de viagem, as pessoas que chegam de fora trazem uma ideia estereotipada da "indolência" italiana.

Mas não é bem assim. Os mesmos amigos que vão para casa de motocicleta para um almoço mais prolongado, constantemente voltam ao escritório para trabalhar até tarde da noite.

Ainda assim, a aparente crença de equilibrar o trabalho duro com o il dolce fare niente (a doçura de não fazer nada, em tradução livre), sempre me chamou a atenção. Afinal, "não fazer nada" parece ser o oposto de ser produtivo. E a produtividade - seja criativa, intelectual ou industrial - é o aproveitamento máximo do nosso tempo.

Mas, enquanto preenchemos nossos dias com mais e mais afazeres, muitos de nós já percebemos que a atividade ininterrupta não é o ápice da produtividade. Mas, sim, sua adversária.

Especialistas sugerem que o trabalho produzido ao fim de uma jornada de 14 horas é de pior qualidade do que quando estamos descansados. Além disso, esse padrão de trabalho também prejudica nossa criatividade e cognição.

Com o tempo, pode fazer com que o trabalhador se sinta fisicamente doente e, ironicamente, como se não tivesse um propósito.

"Pense no trabalho mental como fazer flexões", comenta Josh Davis, autor do livro Two Awesome Hours (Duas Horas Incríveis, em tradução livre).

Digamos que você queira fazer 10 mil flexões. A maneira mais 'eficiente' seria realizá-las sem pausa. Mas seria impossível.

Por outro lado, se fizéssemos apenas uma série por vez, intercalando as "flexões" com outras atividades e distribuindo-as ao longo das semanas, seria muito mais viável alcançar a meta.

"O cérebro é muito parecido com um músculo neste sentido", escreve Davis.

"Estabelecer as condições inadequadas por meio do trabalho constante nos faz ter pouco sucesso. Já se estabelecermos as condições apropriadas, há pouco que não poderíamos fazer."

Fazer ou morrer

Muita gente tende a pensar, no entanto, que o cérebro não é um músculo, mas, sim, um computador: uma máquina capaz de realizar trabalho constante. E, segundo especialistas, o ato de nos pressionarmos a trabalhar durante horas sem descanso pode ser prejudicial.

"A ideia de que é possível esticar indefinidamente os tempos de concentração e produtividade a esses limites arbitrários é muito ruim. É contraproducente", diz o cientista Andrew Smart, autor de Auto-pilot: the Art and Science of Doing Nothing (Piloto automático: a arte e a ciência de não fazer nada, em tradução livre).

Um análise combinada de diferentes estudos no mesmo assunto identificou que trabalhar por muitas horas aumenta o risco de desenvolver doenças coronarianas em 40%, quase tanto quanto ser fumante (50%).

Outro estudo mostrou que as pessoas com longas jornadas de trabalho têm um risco significativamente maior de enfartar, enquanto aquelas que trabalham mais de 11 horas por dia são quase 2,5 vezes mais propensas a desenvolver um quadro de depressão, em comparação com quem tem uma jornada de sete a oito horas.

No Japão, esse hábito tem resultado em uma tendência perturbadora, chamada karoshi ou morte por excesso de trabalho.

Se você está se perguntando se isso significa que deveria tirar suas férias atrasadas, a resposta pode ser sim.

Um estudo realizado com executivos em Helsinki, na Finlândia, mostrou que durante mais de 26 anos, os gerentes e empresários que tiraram menos férias sofreram mortes precoces e apresentaram uma saúde pior na velhice.

Eficiência: algo novo?

É fácil pensar que a eficiência e a produtividade são obsessões novas. Mas o filósofo britânico Bertrand Russell discordaria.

"Vão dizer que embora um pouco de ócio seja agradável, os homens não saberiam preencher seus dias se só trabalhassem quatro das 24 horas", escreveu Russell em 1932.

Da mesma maneira, algumas das pessoas mais criativas e produtivas do mundo se deram conta da importância de fazer menos. Sempre com uma ética de trabalho forte, mas também períodos de tempo dedicados ao descanso e ao ócio.

"Trabalhe em uma coisa só até terminá-la", escreveu o artista e escritor Henry Miller em seus 11 mandamentos da escrita.

"Pare no horário marcado! Mantenha-se humano! Vá a lugares, veja pessoas, beba se isso te atrai".

Até mesmo Benjamin Franklin, um dos 'pais fundadores' dos Estados Unidos, dedicava grande parte de seu tempo ao ócio. Todos os dias, descansava duas horas após o almoço, deixava as noites livres e tinha uma noite inteira para dormir.

Em vez de trabalhar sem parar como impressor, atividade que pagava suas contas, ele passava "muitas horas" socializando e entretido com passatempos.

"Na realidade, os mesmos interesses que o afastaram de sua profissão inicial levaram-no a muitas coisas maravilhosas pelas quais é conhecido, como ter inventado o para-raios", diz Davis.


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