Governo inaugura Oca Literária no Centec Abaitará


Secom - Governo de Rondônia | 20/11/2017

“Cortaram nossos galhos, queimaram nossos troncos, mas não conseguiram destruir nossas raízes”. O cântico de nove dos grupos indígenas que habitam as florestas do estado ecoou como uma reafirmação de resistência sob sol da tarde, no Centro Técnico de Educação Rural Abaitará (Centec), no sábado (18).

A inauguração da Oca Literária é significativa para as etnias que lutam para preservar a tradição no lugar onde a tecnologia está disponível para promover o conhecimento, inclusão e geração de riquezas.

A Oca Literária reproduz o ambiente onde os indígenas viviam há 200 anos. De lá para cá, muito da tradição destes grupos perdeu. A construção foi feita em mutirão por alunos das etnias que têm alunos na escola-fazenda de Abaitará.

O projeto foi idealizado pela professora Rosângela Ribeiro Justo, que é mestra em literatura indígena. “Aqui realizo um sonho”, disse ela na cerimônia realizada ao lado da oca. É ali que serão realizadas palestras, encontros para intercâmbio de informações entre índios e não índios, apresentações artísticas e debates.

“Muitos colegas de outras etnias não conheciam este modelo de habitação”, explicou Rodrigo Jabuti, do povo jabuti, aluno do Centec Abaitará e coordenador do grupo que construiu a oca. Participaram do trabalho nove etnias.

CONSTRUÇÃO

Os alunos intercalaram as aulas com a construção e sacrificaram as folgas do sábado. Mas o resultado agradou a todos e isto pode ser conferido pelosentimento de orgulho estampado em seus rostos.

O governador Confúcio Moura foi à inauguração da oca. Ele não esconde ter pelo Centec Abaitará um carinho singular. A escola, conforme sua orientação, deve ser inovadora para preparar jovens para a vida e para o mercado de trabalho.

“Esta engenharia, que muitos não conhecem, será útil para a junção da cultura indígena com a dos outros alunos”, disse ele sobre a oca inaugurada.

O aluno, segundo o governador, deve estar preparado para o mercado de trabalho quando concluir o curso. Pode, até mesmo, retornar para os imóveis rurais dos pais e aplicar todo o conhecimento recebido. É para isto que servem os cursos profissionalizantes de agroecologia, agropecuária e agronegócio.

UNIVERSIDADES

O Centec Abaitará já cumpre seu papel. Há alunos em universidades de vários estados e, também, trabalhando em fazendas nas regiões onde moram. Mas a Oca Cultural agrega mais conhecimento para os alunos.

Há 260 alunos no Centec Abaitará. Destes, 37 são indígenas. Eles estão entre os mais comportados e aplicados.

Valdeiza Aikanã Kwazá é uma liderança entre os indígenas. Ela vem de duas etnias. Os aikanã e os kwazá. Diz que não tinha muita clareza sobre como poderia ajudar sua comunidade ao iniciar o curso de agroecologia.

Após dois anos, a incerteza ficou no passado. “Descobri que o conhecimento que recebo aqui pode ser aplicado juntamente com o que já faz parte da cultura dos nossos povos”, revela a estudante.

Rodrigo Jabuti também tem papel forte na hierarquia das etnias.  Ele explica que “jabuti” foi a forma como os não índios escolheram para pronunciar“djoromitxi”, o nome correto de seu grupo. É a ele que se reportam os alunos indígenas diante de alguma dúvida.

Na construção da oca, Rodrigo precisou falar sobre seu povo aos demais colegas indígenas, pois boa parte deles não mora mais em ocas, alguns sequer sabe a utilidades dests habitações.

Os indígenas também falaram ao governador através do cacique Fernandinho Kwazá, que foi à cerimônia como mais uma das autoridades. Kwazá disse que os índios estão ali para estudar, para adquirir conhecimento, e algumas vezes não é o mesmo foco dos demais alunos. Por isto, precisam de um ônibus exclusivo. E será atendido.

O diretor Marcos Braúna dos Santos está no cargo há apenas duas semanas e vê a missão de conduzir uma escola de ensino médio com missão tão importante como o maior desafio de sua carreira. O fato do Centec Abaitará oferecer ensino médio integrado ao ensino profissional, em regime de internato, é inovador na carreira do mestre.

“Há uma característica diferente no comportamento dos pais. Muitos acompanham os filhos através do contato virtual, pois as jornadas de trabalho nas propriedades rurais não permitem visitas regulares”, destaca ele.


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